Reduza riscos sem bloquear inovação na sua empresa
A adoção de inteligência artificial nas empresas brasileiras saltou de 20% para 51% em apenas 12 meses, conforme o Índice de Transformação Digital Brasil 2025 (PwC Brasil). No mesmo ritmo, cresce um problema invisível: três em cada quatro profissionais já usam assistentes de IA pessoais no trabalho, mas só 30% das empresas têm políticas claras sobre a prática.
O resultado é o aumento exponencial do Shadow AI, o uso de ferramentas de inteligência artificial sem aprovação ou governança corporativa. Esse uso coloca dados sensíveis em risco, expõe empresas a violações da LGPD e pode custar até US$ 670 mil a mais por incidente de segurança, segundo o estudo Work:InProgress (Google Workspace).
O que é Shadow AI e por que ele cresce sem ser notado
Shadow AI é o uso de aplicativos de inteligência artificial instalados em smartphones, tablets e notebooks corporativos sem qualquer controle da área de TI. A empresa sabe quantos dispositivos tem, mas não sabe o que está rodando neles.
Para Vinícius Olivério, CTO da Urmobo, plataforma especializada em gestão e segurança de dispositivos corporativos, o Shadow AI é, antes de tudo, um problema de visibilidade. "Quando falamos de Shadow AI, estamos falando de aplicativos instalados em smartphones, tablets e notebooks corporativos sem qualquer controle do TI. A empresa sabe quantos dispositivos tem, mas não sabe o que está rodando neles", afirma.
Os dados mostram que a adoção da IA acontece nos dispositivos corporativos, na maioria das vezes, sem visibilidade da área de TI. É nesse ponto cego entre distribuição de hardware e governança de software que o Shadow AI se instala.
Governança em IA: o desafio da ausência de regras
A falta de visibilidade é apenas parte do problema. Para os especialistas, a adoção da IA ocorreu mais rápido do que a criação de políticas internas capazes de orientar seu uso.
Rodrigo Hülsenbeck, CEO da Premiersoft, especializada em desenvolvimento de software e alocação estratégica de profissionais para grandes corporações, resume que o desafio está na ausência de regras. "Governança em IA não significa burocratizar a inovação. Quando não há políticas claras, ferramentas homologadas e orientação, não há controle sobre quais dados são compartilhados e quais riscos são assumidos".
Para Marcos Gomes, sócio-fundador da Dédalo, consultoria especializada em certificações ISO e normas de Segurança e Privacidade, a tecnologia precisa caminhar junto com a conscientização das equipes. "A maioria dos colaboradores não tem intenção maliciosa, apenas desconhece os riscos técnicos envolvidos. Contudo, o Shadow AI não é apenas um problema de TI, mas um risco de compliance e governança. Empresas sem protocolos claros operam com uma vulnerabilidade crítica", alerta.
Por que bloquear não é a solução
Na prática, essa governança depende menos de bloqueios e mais da criação de alternativas seguras para os colaboradores.
A avaliação é compartilhada por Daniel Torres, CEO da Roboteasy, especializada em automação e inteligência artificial para empresas: "Proibir não funciona. Assim como aconteceu com o Shadow IT, bloquear as ferramentas apenas aumenta o uso invisível", afirma.
Segundo o executivo, oferecer plataformas corporativas homologadas, definir políticas simples e investir na capacitação contínua reduz a necessidade de soluções paralelas.
Governança embutida na arquitetura tecnológica
Especialistas defendem que a governança só se torna efetiva quando deixa de depender exclusivamente do comportamento dos colaboradores e passa a fazer parte da própria infraestrutura tecnológica.
Bernardo Rachadel, diretor de IA da Zucchetti Brasil, provedora de software de gestão empresarial, afirma que isso exige combinar diretrizes organizacionais com mecanismos técnicos de proteção. "A governança precisa estar incorporada à própria arquitetura da tecnologia, tornando determinadas violações impossíveis por padrão. Assim, existe a liberdade para inovar, mas dentro dos limites da governança", reforça.
O risco invisível do Shadow Knowledge
Além do risco de vazamentos de dados, especialistas alertam para outro efeito menos discutido: a perda de conhecimento gerado dentro das próprias ferramentas de IA.
Para Carlos Eduardo Nascimento Guimarães, gerente de governança corporativa da Mirante Tecnologia, empresa especializada em modernização de sistemas e cocriação, muitas empresas ainda restringem o debate à segurança da informação, mas existe outra vulnerabilidade importante: o Shadow Knowledge.
"Os funcionários passaram a utilizar soluções de IA em seus próprios dispositivos e muito conhecimento é produzido dentro de chats pessoais. Quando um colaborador deixa a empresa, perde-se todo aquele know-how, pois ele nunca foi registrado em sistemas corporativos", explica.
Segundo ele, reconhecer o Shadow AI como um risco corporativo e criar um ambiente com ferramentas homologadas, critérios claros e capacitação contínua é o primeiro passo para enfrentar esse cenário.
Shadow AI como sintoma, não como problema
Para Rodrigo Perenha, diretor de tecnologia da Kamino, plataforma de automação financeira, o Shadow AI também deve ser entendido como um reflexo da transformação no ambiente de trabalho. "Historicamente, toda vez que uma tecnologia aumenta muito a produtividade, as pessoas encontram um jeito de utilizá-la", afirma.
Na avaliação do executivo, o uso não autorizado revela uma demanda que as empresas ainda não conseguiram atender. "O Shadow AI é, na verdade, muito mais um sintoma do que o problema em si. Quando um colaborador utiliza uma ferramenta de IA sem autorização, normalmente não está tentando burlar a empresa, mas sim tentando ser mais produtivo", sinaliza.
Três frentes para estruturar a governança
Para especialistas, o caminho está em transformar o Shadow AI de problema invisível em oportunidade de estruturação. Isso passa por três frentes:
- Criar visibilidade técnica sobre o que está rodando nos dispositivos corporativos
- Oferecer alternativas seguras homologadas pela empresa
- Estabelecer políticas claras que orientem o uso sem burocratizar a inovação
Fabio Brodbeck, cofundador e CGO da OSTEC, empresa referência em soluções de cibersegurança, reforça que o desafio não é impedir o uso da inteligência artificial, mas criar uma estrutura que permita sua adoção de forma segura. "O problema central não está na tecnologia em si, mas na ausência de governança sobre as informações compartilhadas. Quanto mais rápido as empresas estruturarem essa governança, menor será o custo de gerenciar o risco", conclui.
Perguntas Frequentes
O que é Shadow AI?
Shadow AI é o uso de ferramentas de inteligência artificial sem aprovação ou governança corporativa, instaladas em dispositivos corporativos sem controle do TI.
Quais os riscos do Shadow AI?
Os riscos incluem exposição de dados sensíveis, violações da LGPD e aumento de custos com incidentes de segurança, que podem chegar a US$ 670 mil a mais por ocorrência.
Como reduzir riscos sem bloquear a inovação?
Criando visibilidade sobre os dispositivos, oferecendo ferramentas homologadas e estabelecendo políticas claras que orientem o uso sem burocratizar a inovação.
Por que proibir ferramentas de IA não funciona?
Porque, como ocorreu com o Shadow IT, bloquear as ferramentas apenas aumenta o uso invisível, sem resolver a demanda por produtividade dos colaboradores.
O que é Shadow Knowledge?
É a perda de conhecimento produzido em chats pessoais de IA. Quando um colaborador deixa a empresa, todo esse know-how se perde por nunca ter sido registrado em sistemas corporativos.
